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Duas Amigas, Um Blog

Duas amigas de longa data e algumas das histórias que têm para contar. No fundo duas raparigas com uma grande capacidade para dizer parvoíces..

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Duas amigas de longa data e algumas das histórias que têm para contar. No fundo duas raparigas com uma grande capacidade para dizer parvoíces..

A morte

O meu avô materno morreu na sexta-feira passada.

Foi a primeira morte que me lembre desde que sou "crescida". Nunca tinha ido a um funeral nem nunca tinha visto de perto uma pessoa morta.

 

O meu avô morreu de madrugada. Vivia connosco há cerca de cinco anos, desde que teve um ataque de coração horrivel e como não se tratava bem, veio para cá.

Momentos antes tinha ido à casa de banho pelo seu pé e tinha-se sentado na cama sozinho. Teve dificuldade em respirar uns segundos e o tempo de o meu pai se virar e ir chamar a minha mãe foi fatal. Eu acordei com a minha mãe a chorar. Os bombeiros e INEM levaram muito tempo a chegar e depois não disseram o que aconteceu , só que o meu avô não tinha "viabilidade". Fiquei um bocado a olhar para a médica e a processar a idea de "viabilidade"... mas acho que, tendo em conta o quão rápido tudo aconteceu, ele teve um enfarte...

 

Nessa noite já não dormi grande coisa e a minha mãe ainda menos. O meu pai tratou de tudo com a funerária e na sexta-feira, desde as 11h30, passámos o dia e a noite na capela daqui, com ele. Não havia muita familia (são poucos daquele lado), mas apareceram várias pessoas para falarem com a minha mãe e a minha tia. Nunca tinha estado num velório...é uma experiência...surreal, quase. Foi a noite toda, falou-se de muita coisa, mas era mais o tempo de silencio, que outra coisa. Muito, muito silêncio.

 

O funeral foi sábado às 9h. Até foi tudo bastante rápido...a minha mãe não quis ver a cara do meu avô lá no cemitério, nem quis ver quando baixaram o caixão. Eu fiquei ao pé dela mas devo confessar que o som da primeira pá de terra a bater fez-me vir as lágrimas aos olhos, acho que foi aí que se tormou fisica a noção de que ele ia lá ficar...

 

Durante o resto do dia, a minha mãe andou assim morosa, lenta...ainda não lhe passou embora eu tente por tudo distraí-la...é que nem sei o que é melhor, ignorar a coisa e deixá-la andar ao ritmo dela ou tentar distraí-la...tanto uma coisa como outra também me custam porque fico sempre na expectativa de ela se pôr a chorar ou ficar zangada...não sei qual das coisas me custa mais a ver.

Eu gostava do meu avô, mas antes de ele vir dormir para cá não o via assim muito. Ele, e é a verdade segundo a minha mãe e a minha tia, não foi um bom marido para a minha avó. Ele não era muito dado a afectos, era um bocado distante. Era assim a maneira de ser dele. Mas como pouco o via, os meus afectos por ele também não eram imensos. Tive pena e foi duro, mas mais pela minha mãe, para ser sincera. No entanto, sinto a falta dele, é inevitável depois de nos habituarmos. Ainda ontem subi as escadas e pensei que tinha de ir devagar porque ele dormia no quarto em baixo e depois acordava...a ideia que isso nunca mais vai acontecer veio logo a seguir, mas por momentos...

A minha mãe ainda não entrou no quarto. Eu limpei-o e arrumei-o ontem mas ela ainda lá não foi desde que ele morreu. Eu compreendo, mas parte de mim anseia para que ela o faça...mas enfim, o tempo de luto de cada um é isso mesmo, pessoal.

 

Às vezes penso nele e fico com pena...ainda me lembro dele na cama...mas sei que para mim as memórias dele não são tão fortes...

Realmente a morte custa muito a quem fica, muito, muito...

 

Necas